Allir vilja herrann vera, en engin sekkinn bera. (ISL)
Everyone wants to be lord, but no one wants to carry the bag. (ENG)
(Provérbio Islandês)
Dia de Partilha de quem Calça a Sapatilha e Corre é sempre um dia especial para mim!… Passar a Palavra e a Sapatilha relembra-me por que arrisquei neste mundo digital e como os meus Amigos são tão especiais, tão talentosos, tão genuínos… Acredito profundamente que todos temos uma(s) história(s) para contar e que somos únicos na forma como o fazemos… Este ano conto contigo (e com ele, e com ela…) para encher este separador de viagens, sabores e inspirações!! Vá lá…. Arrisca 😉
Hoje trouxe de volta o João!… Ele que, generosamente, detalha cada segundo das viagens que já fez e que me transporta para esses lugares… sinto a brisa, o calor do sol, a frescura da água, os cheiros, os sons… Lembro-me que nas primeiras conversas que tivemos, falámos de como gostamos de viajar e correr o Mundo sem rumo… e lembro-me de como os meus olhos brilharam e o sorriso se alargou quando ele me disse eu já fui à Islândia! 🙂 É um dos meus destinos de sonho, de curiosidade, de descoberta e de liberdade… Estava ansiosa por este post e confesso que só não marco já a viagem, porque já não tenho dias de férias este ano!… Mas ainda há tanta vida na vida…
PASSO A SAPATILHA…
AO JOÃO, NA VIAGEM QUE ATIVA TODOS OS NOSSOS SENTIDOS!
Autor: @umavidanadapacata

Visitar a Islândia é obrigatório. Não há outra forma de o dizer! Não tenho a experiência de ter estado nos 195 países do mundo (resolução de uma vida!) mas este país é especial. Digo sempre que o meu país favorito vai ser sempre Portugal, mas a Islândia tem um lugar especial no meu coração. Quando decidi começar a viajar, (uma vontade de sempre que só encontrou disponibilidade tarde) fiz um top 3 de destinos que considerei essenciais visitar. Já te falei da viagem a Israel e o Japão já esteve mais longe (post para 2019 se a Diana deixar!). Mas o número 1 foi sempre a Islândia. O país mais pacífico do mundo, com uma política ambiental única e com imensos segredos por desvendar.
Vamos abrir o livro de memórias e recuemos a 2016. A minha primeira grande viagem. Resolvi fazer a viagem em Junho, no pico do Verão. Guardei 10 dias para uma road trip pelo país. Nestes 10 dias conheci pessoas maravilhosas e sítios inesquecíveis; e mandei o plano de viagem para o lixo ao segundo dia! Para quem gosta de ter tudo planeado foi uma experiência muito interessante. Vamos então viajar. Acompanhas-me?
Lisboa – Londres – Reykjavik
Na altura não havia voos diretos, e na hora de escolher a escala entre Madrid e Londres, escolhi a segunda. Aproveitei para visitar amigos e matar saudades de uma cidade onde gosto sempre de voltar.
Aterrei no aeroporto internacional de Keflavik num dia cinzento de Verão. Depois de ir buscar o carro que me faria companhia no resto da viagem segui imediatamente para Reykjavik, a capital. A paragem foi o tempo necessário para ir levantar o equipamento de campismo necessário à minha estadia. Resolvi deixar a visita à capital para o final da viagem. Com o carro cheio (mochila, tenda, saco cama, colchão, comida e bebida) fiz-me à estrada em direcção à primeira paragem, (a única que cumpriu o plano): Gullfoss.
Gulfoss – Grundarfjörður
A Gullfoss é uma cascata que fica num desfiladeiro do Rio Hvítá, com caudais médios de 140 m³/s! É garantido que se te aproximares dos vários observatórios espalhados à sua volta, te vais molhar. A força é inacreditável. No entanto, este local chegou a correr o risco de desaparecer no início do século XX, quando houve planos para construir uma barragem hidroelétrica no rio que alimenta a Gullfoss. Uma história popular, verídica ou não, conta que Sigríður Tómasdóttir, a filha do homem que era dono das terras à volta da cascata, fez tudo para salvar este local. Segundo a história, Sigríður foi a pé até Reykjavik (120 km), onde chegou em muito mau estado e com os pés ensanguentados. Acabaram por ouvi-la, os planos de construção da barragem pararam e hoje existe um pequeno memorial em sua honra na própria Cascata Gullfoss.

No caminho para a Gullfoss, passei pelo Geyser. É, na verdade, o pai dos geysers, o primeiro. A palavra deriva do verbo islandês geysa, ou seja, jorrar. Na região onde se encontra, o vale de Haukadalur, não é o único. Aliás as erupções do Geyser original já não são assim tão frequentes devido a alterações geológicas. Existe outro perto, o Strokkur, que explode até aos 30 metros de poucos em poucos minutos. Ambos são fontes termais fumegantes com cheiro a condizer.
Depois de uns momentos de descanso, segui a minha viagem para Grundarfjörður. No caminho resolvi passar pelo único túnel que existe na estrada principal do país. Podes sempre contornar, mas acho uma experiência interessante e o preço não é elevado. Ao contrário dos nossos tuneis, este é escavado na rocha e assim fica, dando uma imagem natural à obra do Homem. O ar não é abundante e o percurso é longo o suficiente para à saída já sentirmos imensas saudades do céu.
Grundarfjörður é uma pequena vila de pescadores numa península formada pela montanha Kirkjufell. É também um dos locais de filmagem do filme The Secret Life of Walter Mitty, que recomendo veres (para além do filme em si tem uma excelente banda sonora). Depois de um dia que começou em Londres, resolvi parar e descansar no parque de campismo. Mal eu sabia o que me esperava no dia seguinte.

Grundarfjörður – Látrabjarg – Ísafjörður
Segui para norte em direcção ao ponto mais oeste do país, os Penhascos de Látrabjarg. Ao longo de 14 quilómetros de terra batida, existem penhascos com até 440 metros de altura. Aqui vivem várias espécies de aves que, por não existirem predadores, se deixam aproximar sem qualquer medo. Entre eles os famosos papagaios-do-mar (puffins, em Inglês; lundi, em Islandês), que ficam na parte mais alta do penhasco.

Puffins
O destino é, de facto, fantástico e fiquei imenso tempo só a apreciar a paisagem. A maioria dos turistas só faz a estrada principal e a capital e não são muitos os que se aventuram nestas estradas estreitas. Eu digo que os sustos momentâneos de proximidade aos penhascos dissipam-se logo que se chega a Látrabjarg.

A caminho do Oeste
Ísafjörður é a capital dos fiordes ocidentais. Fica mesmo à beira-mar, numa das poucas zonas planas das redondezas. Para chegar à cidade tive que conduzir em estradas de terra batida dos fiordes ocidentais que só estão abertas no Verão. Valeu bem a pena fazer o percurso até à cidade porque todas as paisagens são inesquecíveis.

Passei aqui a segunda noite, num parque de campismo com uma montanha e uma cascata como vizinhas. Há piores sítios para descansar realmente! Dei uma volta pela pequena cidade e jantei num dos restaurantes recomendados pelo pessoal do parque. Ainda bem que segui o conselho! Comi a melhor sopa de peixe da minha vida. Tentei roubar a receita mas infelizmente não tive sucesso.
Ísafjörður – Akureyri
Arranquei de manhã pelo norte do país em direcção a Akureyri. Este foi o maior percurso da viagem, mas também aquele que não tinha nenhum ponto de paragem definido. A paisagem na estrada é deslumbrante. Do outro lado do mar, via-se, por vezes, o norte dos fiordes ocidentais, completamente gelados, praticamente inacessíveis e desabitados. No topo de algumas montanhas, ao lado da estrada, há mesas de piqueniques para os corajosos que se atrevem a enfrentar o vento forte e frio. Após cruzar algumas pontes e seguir mais para sul, comecei a encontrar quintas isoladas e campos cada vez mais verdes.


Ao longo da costa norte da Islândia encontrei um fenómeno curioso: com grande parte do país coberto de vulcões e glaciares, não existe muita área de floresta! O engraçado é que, em muitas praias, vi troncos de árvores dispersos ou alguém a organizá-los, para serem carregados para outras partes do país. Nunca soube de onde vinham.
Akureyri é uma pequena cidade no norte, a quarta maior do pais. Pouco tinha a ver e aproveitei para dar uma volta rápida, comer qualquer coisa e ir descansar. O dia seguinte prometia.
Akureyri – Myvatn – Seyðisfjörður
Depois de sair de Akureyri, segui para este. Primeira paragem: a Goðafoss. A cascata Goðafoss (em português, cascata dos deuses) deve o seu nome a um período conturbado da história da Islândia, por volta do ano 1000. Nessa altura, foi adotado o cristianismo como religião oficial, em detrimento da adoração aos deuses nórdicos, tendo sido lançadas às correntes tumultuosas da cascata várias estátuas pagãs. A Cascata dos Deuses é impressionante. Podemos subir e observar o rio que a alimenta ou relaxar mesmo ao lado. Uma boa ideia para o próximo passo.

O lago Mývatn (em português, lago dos mosquitos) compreende também as cascatas Dettifoss e Goðafoss, o desfiladeiro Ásbyrgi, a vila de Húsavík e toda uma zona rica em atividade vulcânica e geotérmica. Um aviso, se pretendes passear pelas zonas pantanosas: leva lenços ou idealmente uma rede semelhante à dos apicultores. No verão, esta zona está infestada de mosquitos que, embora não piquem, são tantos e tão chatos que o passeio se pode tornar um martírio.

Na zona leste, situa-se o parque Dimmuborgir que consiste em formações dramáticas de lava escura (em português, cidades escuras). O passeio a pé pelo meio das rochas afiadas, de aspeto infernal, vale a pena, fazendo-nos sentir que estamos num lugar que não faz parte deste mundo!
Um pouco mais à frente, foi possível escalar os 500m do Hverfjall, um monte com origem vulcânica que teve a sua última erupção há mais de dois mil e quinhentos anos. Depois da sofrida escalada, contornei a cratera com mais de três quilómetros no topo. O trilho estreito sobe e desce, repleto de pedras soltas, não sendo nada aconselhável a quem não esteja habituado a caminhadas e não tenha calçado adequado.
A vista para o lado interior é sempre a mesma: um abismo negro que termina num pequeno monte interior no centro da cratera. Para o lado exterior, as vistas são magníficas sobre toda a zona do Mývatn, em especial o lago. É também possível observar o parque Dimmuborgir e os seus castelos negros, escarafunchado por trilhos, em que formigas humanas deambulam.
A seguir, rumei em direção à famosa cascata Dettifoss, que serviu de base para a cena inicial do filme Prometheus. Depois da caminhada de cerca de 15 minutos, cheguei à beira do rio e foi possível avistar a cascata. O ruído era ensurdecedor e a visão das águas que se precipitavam pelo desfiladeiro hipnotizante. Deambulei pela berma do desfiladeiro à procura do enquadramento perfeito sem grande sucesso, tendo por vezes escorregado no piso lamacento e por pouco não fui ao chão.
No regresso, fiz um pequeno desvio para ver de perto a Selfoss, a cascata que alimenta a Dettifoss. Esta, embora menos conhecida, merece também uma visita.
Hverarönd é um parque onde a atividade geotérmica abunda, fazendo lembrar uma paisagem marciana devido ao seu solo alaranjado. Passear pelo meio do parque não é aconselhável aos fracos de estômago, por causa do cheiro nauseabundo a ovos podres. Existem várias poças com um líquido preto em ebulição e amontoados de pedras, semelhantes a chaminés, donde sai vapor ruidosamente.
Deixando Hverarönd, segui em direção ao parque Krafla, reparando nos vários avisos que surgiam ao longo da estrada, alertando para os perigos de ir para uma zona de atividade vulcânica recente.
A anfitriã do parque é uma central geotérmica, com aspeto futurista, situada na base de um vale, com tubagens a estenderem-se pelas montanhas como braços de um polvo. A estrada é atravessada por um desses tubos, de diâmetro superior à altura de um homem, formando uma espécie de caixilho de porta.
Segui caminho até à cratera Víti, cheia de água azulada, onde se acentuava o contraste entre o laranja do solo, o branco da neve e o azul do céu. A meio da caminhada à volta da cratera, passa-se por um dos ruidosos pontos de captação de vapor para a central. Estas cúpulas semiesféricas parecem tiradas de um filme de ficção-científica passado noutro planeta.

Depois de um dia de forte atividade pedestre, nada melhor do que uns banhos quentes para relaxar os músculos doridos. Os Mývatn Nature Baths, à semelhança da Blue Lagoon, são piscinas de água azulada no meio de campos rochosos de lava.

Esta viagem está cada vez melhor!
No fim enfiei-me no carro e segui até ao destino final, Seyðisfjörður. Uma pequena vila de pescadores, com umas casinhas engraçadas. Para lá chegar, passei pela maior diferença de temperaturas em que já tive num curto espaço de tempo. Antes de chegar, temos que subir uma montanha onde no topo estavam -2ºC para chegar à base com 16ºC. Not bad!
Seyðisfjörður – Höfn
Viagem tranquila entre os dois pontos com pouco para contar a não ser por duas curiosidades: foi em Höfn que vi a Selecção Nacional contra a Islândia e foi em Höfn que tirei aquela que é para mim uma das minhas fotos favoritas. Höfn pouco tem a dar, mas nunca me vou esquecer da simpatia das pessoas, o convite para ver o jogo por completos desconhecidos na sua própria casa, o encontro com outros portugueses e a celebração no final do jogo. Pode não ter sido o percurso mais bonito, mas foi, sem duvida, um dos inesquecíveis!

Höfn – Jökulsárlón – Parque Nacional Skaftafell – Vìk
Saído de Höfn logo pela manhã, parei mal pude, naquele que era um dos locais que aguardava com maior expectativa.
Jökulsárlón é o lago glaciar mais famoso da Islândia e uma das atrações mais populares e únicas que poderão encontrar. Com uma área de 18km² e junto a uma praia de areia escura, no sudoeste da Islândia, o nome traduz-se literalmente para Lago do Rio Glaciar. O lago tem vindo a aumentar a passos largos, desde 1970, quando tinha apenas ¼ do seu tamanho atual, e encontra-se agora a cerca de 1,5km da costa que dá para o Oceano Atlântico. Este enorme lago é preenchido com icebergs que se desprendem do glaciar Breiðamerkurjökull, uma língua de gelo da maior calota polar da Europa, Vatnajökull.
Toda esta área tem o nome de Praia do Diamante, devido ao brilho intenso do gelo compacto e translúcido, com milhares de anos de idade, que brilha ao sol, contrastando com a areia negra da praia que envolve o lago. Embora muitos glaciares estejam cada vez mais recuados, o Breiðamerkurjökull está a recuar a uma velocidade mais rápida do que seria de esperar por causa dos efeitos das mudanças climáticas e o aumento da temperatura do oceano no hemisfério norte. As águas do oceano entram no lago quando a maré enche e acabam por ir acelerando o processo. No verão, os icebergs derretem-se e navegam pelo canal até ao mar. As focas podem ser vistas com segurança durante todo o ano, nadando entre os icebergs como eu próprio tive oportunidade de testemunhar, já que Jökulsárlón oferece-lhes refúgio seguro para descansar e socializar. Uma curiosidade é que a lagoa já foi o setde filmagem para quatro filmes de Hollywood, entre eles Batman Begins.


O Parque Nacional Skaftafell uma bela região montanhosa no sul da Islândia, no extremo sul do imponente glaciar Vatnajökull. Aqui pode-se escolher um ou vários trilhos para percorrer a pé, com diferentes dificuldades. Para além destes trilhos, podem ser, com um guia, fazer uma visita ao glaciar e às suas grutas. Nos trilhos a escolher, há que considerar sempre a visita à Svartifoss com suas intrigantes pedras basálticas hexagonais, esculpidas pela natureza.

Para terminar este dia bem completo, chego a Vìk para a última paragem antes da capital. Vík tem em comum com tantas outras praias na Islândia a área preta e um conjunto de formações rochosas, as Reynisdrangar.

Reykjavik
Não querendo causar choque a ninguém, Reykjavik é a parte menos da viagem. Não que não tenha beleza ou que não haja coisas para fazer mas, comparando com o resto do pais (principalmente o norte), falha aos meus olhos.
Fiquei dois dias. Mal cheguei, entreguei logo o carro e o material de campismo, fiéis companheiros que nunca me deixaram ficar mal. Aproveitei e fiz um free tourcom um guia espetacular que, mesmo depois da visita terminar, continuou com o pequeno grupo que ficou para o fim. A casa da Ópera, a câmara municipal e, principalmente, a Hallgrímskirkja são essenciais nesta visita.

Casa da Ópera

Hallgrímskirkja
Reykjavik vê-se rapidamente. O que acaba por ser bom porque passei o resto do tempo a aproveitar realmente o que havia. Estávamos em pleno Euro 2016 e vi, juntamente com outras centenas de pessoas Portugal empatar com a Áustria e a Islândia com a Hungria. Mais uma vez, extremamente bem recebido, cantaram comigo por Portugal, rimos e fizemos a festa. Estava em casa. Deambulei pela cidade, e por todas as ruas e ruelas que tinha para ver, aproveitando para descansar do resto da viagem e para me ir preparando mentalmente para o regresso.
#calcaasapatilhaecorre
No dia seguinte, segui para o aeroporto e voltei à realidade. Uma pequena paragem em Londres e cá estava eu novamente, em Lisboa.
É curioso pensar em 2018 a viagem que fiz em 2016. Embora já tenham passado dois anos, a viagem mantem-se atual na minha cabeça e acabou por ser muito importante para o meu futuro. Hoje, e depois de outras viagens que já fiz e que quero fazer no futuro próximo, esta mantem-se como aquela que me é mais querida, a que mais feliz me deixou e feita onde quero voltar sempre.
O que esperas? Calça a Sapatilha e Corre! E se precisares, há sempre aqui alguém que quer fazer tudo outra vez.
